Superoutro, o super-herói baiano.

Em homenagem aos 20 anos do Superoutro republico na íntegra a crítica de Angela José, datada de agosto de 1989 - Cinemin nº 56. Superoutro entra de novo em cartaz no dia 18 de dezembro no Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, em Salvador, Bahia.

O Cinema Baiano quer voar. E voa pelas mãos dos seus mais jovens expoentes – Edgard Navarro, Pola Ribeiro e Fernando Bélens. O novo filme do grupo Lumbra é Superoutro, média-metragem dirigido pelo irreverente Navarro, que tem como protagonista o ator Bertrand Duarte, estreante em Cinema.

Rodado em julho de 1997 nos pontos mais folclóricos e tradicionais de Salvador, só agora, quase dois anos depois, o filme é lançado comercialmente no Cine-Teatro Maria Bethânia (hoje a churrascaria Fogo de Chão), e deverá percorrer os principais festivais do País.

Superoutro é uma sátira bem-humorada que conta a história de um louco, esquizofrênico, o anti-herói brasileiro, cuja missão é voar. O ator de teatro Bertrand Duarte com quase dez anos de carreira (Prêmio Martin Gonçalves para Melhor Ator Coadjuvante, em 1980) e atualmente apresentador de programa de variedades da TV Itapoan, encarna de tal forma o personagem, que, durante as filmagens, era rejeitado pelo povo, na rua, devido a seu aspecto sujo, e, noutras vezes, chegou a receber esmolas, permitindo ao diretor um raro espetáculo de Cinema de variedades.

Logo de início, Navarro mostra que Superoutro não é um filme ameno, regular; pelo contrário seu herói é um tipo marginalizado, que incomoda expondo suas feridas urbanas. Na seqüência inicial, “o outro” vagueia pelas ruas de um bairro nobre de Salvador e surpreende o porteiro de um prédio de classe alta destruindo com um tonel de lixo as portas de vidro do edifício. Grita:

– Acorda, humanidade!

A partir daí, impossível cochilar no filme.

A trajetória deste louco de rua, imprensado pela miséria e torturado pela falta de amor, revela as condições subumanas em que vivem os marginalizados da sociedade brasileira. O filme é um grande painel das culturas baiana e brasileira, que utiliza os clichês da modernidade, o quadrinho, a mídia de rua, a televisão, as pixações, a literatura, a música, a história, a política e o próprio Cinema. Os delírios lúcidos de “o outro” são citações de Gregório de Mattos, Castro Alves, Glauber Rocha, entre outros.

Antropofágica e tropicalista, a trilha sonora de Superoutro mistura Villa-Lobos, Arrigo Barnabé, Banda Mel. Chitãozinho e Chororó. Carlos Gomes. Caetano Veloso, Fautso Fawcett. Nino Rota, pontos de Candomblé da Bahia, trechos de óperas, os Hinos da Independência do Brasil e da Internacional Socialista, utilizados como elemento dramático e transtextual. Além das citações poéticas e musicais, em Superoutro, Edgard Navarro homenageia cineastas como Leon Hirzmann, Glauber Rocha e Fellini, e se apodera da paródia, no estilo das chanchadas brasileiras, para satirizar o super-herói americano. Super-Homem (que este ano comemora 50 anos - referia-se Angela José, autora desta crítica que você lê, no ano de 1989), em comparação com o nosso super-herói, subdesenvolvido, terceiro-mundista e subnutrido.

Superoutro também faz trocadilho com “Super-8”, bitola que foi a iniciação cinematográfica de Edgard Navarro e de toda uma geração de novos cineastas que surgiram no País no início dos anos 70. Em S-8, Edgard dirigiu Alice no País das Mil Novilhas, O Rei do Cagaço e Exposed, uma trilogia irreverente, escatológica, agressiva e bem-humorada. Em 79, ele, Fernando Bélens, Pola Ribeiro e Araripe Jr. formaram a Lumbra Cinematográfica, que hoje já conta com sete curtas-metragem em 35mm e um média-metragem em 16mm. Na filmografia de Edgard Navarro, seus dois filmes em 35mm anteriores a Superoutro, foram premiados em festivais nacionais: Porta de Fogo (Melhor Filme e Roteiro no Festival de Brasília, e Melhor Ficção na Jornada de Cinema da Bahia , ambos em 1985), Lin e Katazan (Melhor Filme, Montagem e Ator, no Festival de Brasília de 1986).

O FILME

Numa noite, ao ouvir barulho de moto, acredita ser o anjo Gabriel e se atira contra a motocicleta. Maltrapilho e mal-amado (fellinianamente sobe numa árvore suplicando por uma mulher), “o outro” se transforma em Super, em frente ao Cine Glauber Rocha, ao ver o cartaz de Superman – The Movie. Agora, com sua nova indumentária, uma malha verde-amarela e uma capa azul com estrelas, “Superoutro” discursa na Praça Castro Alves. Seu intuito é voar do Elevador Lacerda, é ser defendido por uma beata protestante e condenado por um militante sindicalista. Imbuído de seus poderes, Superoutro declara:

– Brasileiros e brasileiras, o País espera que cada um cumpra com o seu dever, e o meu dever é voar.

Superoutro apresenta dois finais. O primeiro dentro dos padrões morais e repressivos da sociedade, demonstra que não há espaço para os que transgridem a lei, sem possuir um mínimo de poder. O segundo preenche a fantasia do espectador, que, como o personagem, anseia por romper as barreiras do sistema e da mente, triunfando sobre a gravidade com a força dos superpoderes. Para narrar a história de “Superoutro”, Navarro contou com o trabalho dos técnicos baianos Lázaro Faria (diretor de fotografia), José Araripe Jr. (diretor de arte), Ivo Gatto (cenotécnico), Marie Thauront (caracterização), Simone Ribeiro e Doía Ribeiro (figurinos), entre outros.

O elenco é formado em sua maioria por ex-alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, entre eles (além de Bertrand Duarte), Inaldo Santana, Fernando Fulco, Kal Santos, Wilson Mello, D. Mocinha, Frieda Guttman, Irema Santos, Ives Fromand, Ednéas Santos, Laudenício, Jorge Reis e Fafá Pimentel, além das participações especiais de Nilda Spencer (ex-diretora da Escola de Teatro) e Deolindo Checucci (teatrólogo).

O filme é uma co-produção da Fundação do Cinema Brasileiro e Sany Filmes, com o apoio cultural da Prefeitura Municipal de Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, Retina Multimídia e a Empresa Gráfica da Bahia. A direção de produção é de Alexandre Barroso, e a produção executiva de Silvana Godinho e Pola Ribeiro.

Superoutro ganhou em Gramado, os prêmios de Melhor Média-Metragem, Direção e Ator.”

Angela JoséTodo o conteúdo foi transcrito do Cinemim nº 56, de agosto de 1989, há 20 anos, numa homenagem aos 20 anos do filme baiano Superoutro.

Angela José – em memoria – é a autora de “Olney São Paulo e a Peleja do Cinema Sertanejo”. A jornalista carioca Angela José Nascimento, especializada em cinema brasileiro e latino-americano, trabalhou no Correio da Bahia e lecionou na FTC – morreu em 2007, aos 51 anos, vítima de um AVC – acidente vascular cerebral. Fica aqui também a minha homenagem a grande mestre Angela José.

Fonte: Cinemim nº 56 por Angela José, BlogDemais, TudoMuito, Bertrand Duarte.

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